Coleccionar Armas

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Coleccionar Armas  

Jaime Regalado

 

O acto de coleccionar está intimamente ligado com o intelecto, com a capacidade e a necessidade de relacionar objectos entre si e agrupá-los, preservá-los e, em última instancia, apresentá-los de forma didáctica e sistematizada, projectando no presente e no futuro uma imagem de um passado, mais ou menos distante, de um grupo ou identidade.

Embora o conceito de colecção, pública ou privada, só se tenha afirmado no Século das Luzes com a estruturação enciclopédica do conhecimento, as colecções de armas são bastante anteriores.

Na verdade, elas emergem das armarias ou armazéns de armas, conservadas nas residências senhoriais fortificadas, nos castelos feudais ou nos arsenais, com fins funcionais, de modo a armar e equipar as tropas para a guerra.

No território português, a Torre da Cunha, próximo de Braga, construída por D. Lourenço Fernandes da Cunha, nos finais do século XII, é a mais recuada referência a um armazém de armas, onde se descrevia a existência “<p>de quarenta escudos, de diversos capelos de</p>ferro e de muitas armas não especificadas” (Barroca, 1997).

Estes espaços, que armazenavam armas de forma estritamente funcional, existiram um pouco por todo o território português, incluindo as Ilhas, neste caso à guarda dos Capitães Donatários.

No século XVI, estes armazéns de armas começam a cumprir uma dupla função de armazenar e conservar as armas prontas para a guerra mas também de conservar as armas mais antigas ou os troféus capturados ao adversário em feitos de guerra. Começam assim a ser um elemento de demonstração de poder e não é em vão que Damião de Goes, na sua Descrição da Cidade de Lisboa dedica bastante atenção ao antigo Arsenal do Paço da Ribeira, criado por D. Manuel I, descrevendo com algum detalhe o seu conteúdo.

As colecções de armas surgem então um pouco por todas as côrtes europeias destacando-se as colecções de Henrique VIII (na Torre de Londres); o Gabinete de Armas de Luís XII (no castelo de Amboise, França); a Real Armaria (coleção de Carlos I em Madrid) ou a Coleção de Ambras, de Fernando I (em Viena, Áustria).

Em Portugal, antes do terramoto de 1755, existiam ainda outras colecções de armas para além da colecção real do Paço da Ribeira, de carácter particular, sendo algumas das mais notáveis a dos Condes de Ericeira, a de Santarém e a da vila de Alfândega da Fé (Catálogo do Museu Militar, 1930) passando assim uma imagem de poder e de riqueza, reforçado pelas decorações que as armas passaram então a ostentar afirmando-se também como armas de aparato.

Se até ao século XVIII, as colecções de armas foram um privilégio régio ou da alta nobreza, a partir desta altura o hábito de reunir obras de arte constituía uma demonstração de prestígio e riqueza que se estendeu à burguesia. Paralelamente, no Século das Luzes, a nova visão racionalista do mundo envolvente, aguçou a curiosidade pelo desconhecido e pela sua descoberta. Foi o período das grandes viagens de exploração, que rechearam os museus de Historia Natural, os Jardins Botânicos e Zoológicos, geraram acesas discussões nas Academias de Ciências e deram lugar aos Gabinetes de Curiosidades, que muitas vezes incluíam armas de natureza diversa.

O conhecimento enciclopédico materializava-se assim, ao longo do século XIX, nas salas dos museus públicos, de forma sistemática e com um objectivo didáctico. Do mesmo modo, surgiram inúmeras colecções particulares, onde uma burguesia endinheirada e em ascensão tentava comprar um passado inexistente ou decalcava o gosto das elites culturais do Antigo Regime.

Concomitantemente, as coleções de armas passaram a ser utilizadas como objeto de estudo das elites militares. Em Paris, numa sala do Armazém da Bastilha, foi constituído pelo marechal Duque de Humiéres um depósito de bocas de fogo de modo a servir como elemento de estudo aos oficiais de artilharia.  

Em Portugal, em 1842, por iniciativa do Barão de Monte Pedral, foi constituído o Museu de Artilharia que além das inúmeras bocas de fogo constitui também um depósito de diversos artefactos e curiosidades militares que vem a ser o grande repositório de todo o tipo de armamento e outros engenhos militares, a par com a Sala de Armas da Escola de Guerra, no Paço da Raínha, em Lisboa, para onde convergiam muitas das novidades tecnológicas internacionais.

No século XIX as colecções de armas marcam também a sua presença de forma indelével num Mundo então orientado para a tecnologia e a industrialização. Nas Exposições Universais (Paris, Londres, etc.) os fabricantes de armamento ocupam um lugar de destaque. Em Portugal, nas várias

Exposição Industriais, o Arsenal do Exército e o Arsenal de Marinha primam pela sua presença nestes certames de incontestada importância nacional.

No Palácio da Pena, em Sintra, existia também uma notável Sala de Armas reunida por D. Fernando II, a que D. Carlos I deu continuidade dada a sua paixão pela caça e pelas armas em geral, sendo além do mais um exímio atirador. Dispersa por diversos palácios encontra-se agora reunida entre o Paço Ducal de Vila Viçosa e a Sala D. Carlos no Museu Militar em Lisboa.

 

Mas a coleção régia não é única. Na Exposição Internacional Canina, que decorreu no Palácio de Cristal, no Porto, em 1902, foram expostas as colecções de armas de D. Carlos I e de Manuel Francisco Araújo, uma colecção organizada ao estilo dos Gabinetes de Curiosidades da transição do século XIX para XX, que expunha numa sala de sua casa, a par com as colecções de cerâmica e mobiliário. Neste certame as colecções de D. Carlos I e Manuel Francisco Araújo (hoje a colecção de armas encontra-se no Museu Militar do Porto) foram premiadas ex-aequo com a Medalha Vermeil

Observamos assim uma evolução da essência das colecções de armas de simples repositório de armamento a património histórico e tecnológico de uma nação, de elemento de projecção de poder a curiosidade artística ou tecnológica.

Porém, não fora o espírito aglutinador de peças do coleccionador individual e particular, e muito do património histórico de armamento e do conhecimento que lhe está associado, estaria hoje definitivamente perdido.

Por isso, cada coleccionador constitui-se assim como fiel depositário de uma porção de património, cabendo-lhe o relevante papel de o fazer chegar às gerações vindouras, em pelo menos tão boas condições como aquelas em que o recebeu.

Embora o acto primário de coleccionar consista na aquisição e reunião das peças, de acordo com o tema de colecção, a sua identificação, sistematização, enquadramento e correlação é, na verdade, a genuína essência da colecção. A informação obtida do estudo sistemático e correlacional dos diversos elementos que a constituem é que distingue o acto de coleccionar do acto simples de possuir.

Cabe agora aos coleccionadores deste apaixonante tema que são as armas, nas suas diversas vertentes, agremiarem-se para que possam partilhar entre si conhecimentos, experiência, bibliografia e, sobretudo, apoiar os neófitos, promovendo a sua evolução de interessados a coleccionadores.

 

 

Bibliografia:

Artur, Ribeiro. 1910. O Museu do Exército. O

Ocidente – Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro n.º 1119: pp. 21-22.

 

Barroca, Mário Jorge. 1997. Torres,

Casas-Torres ou Casas-Fortes. A concepção do espaço de habitação da Pequena e

Média Nobreza na Baixa Idade Média (Sécs. XII-XV). Revista da História das

Ideias Volume 19: pp. 39-103.

 

Teixeira, Mariana. Dos armazéns de armas aos

atuais museus militares da Direção de História e Cultura Militar. Ensaios e

Práticas em Museologia. Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do

Património da FLUP, 2012, vol. 2, pp. 182-200.

 

Monteiro, Isilda. 1995. O Exército e o registo

da memória. As monografias das unidades. Apresentada no VI Colóquio «Portugal

na História Militar».

 

Rodrigues, F.; Teixeira, M. Museus Militares do

Exército – Um Modelo de Gestão em Rede. Edições Colibri, Lisboa, 2012.

 

Download do ficheiro (Parabellum portuguesas por J R.pdf)